Editorial

Encontros Urbanos

As Cidades, como espaço territorial definido, destinam-se a propiciar encontros. Constituem o território facilitador da troca entre as pessoas que vivenciam um mesmo espaço no qual simplesmente acontece a experiência de estar junto.

Diversas são as atividades que podem ocorrer simultaneamente num determinado lugar, assim como diferentes são os níveis das relações sociais que ali se processam. Jan Gehl nos fala de três tipos de atividades exteriores que podem acontecer e ao mesmo tempo: 1. Necessárias, que independem da vontade de se realizar (deslocamento para ir ao trabalho, à escola, ao médico, mercado, etc); 2. Opcionais, em que é necessário o desejo de sair para o espaço exterior que, por sua vez, dependem do tempo a ser investido e da qualidade do espaço externo; e, 3. Sociais, que podem ou não ocorrer e dependem das duas outras anteriores. Conclui o urbanista que a qualidade do “espaço entre edifícios” caracterizado pelo entorno físico (o meio público, a rua, a praça), mesmo não influenciando diretamente no número daquelas consideradas necessárias, tem influência determinante sobre as demais. As atividades opcionais aumentam significativamente nas situações em que se verifica boa qualidade no entorno físico, o que acaba por afetar positivamente as atividades socais. (La humanización del espacio urbano).

Assim, o planejamento e o projeto arquitetônico das Cidades podem influenciar (e facilitar) em muito as relações entre as pessoas. A concepção da organização do território, parcial ou inteiramente, de algum modo, incide sobre o convívio social, podendo promover ou afastar o encontro no espaço urbano.

Falamos aqui da organização do espaço urbano. Espaço como reunião dialética de fixos e de fluxos, elementos conexos e contraditórios, formado por uma determinada configuração territorial e por relações de produção e relações sociais. O espaço formado por um sistema de objetos (fixos) e um sistema de ações (fluxos). “Fixos hoje cada vez mais artificiais e mais fixos, fixados ao solo; os fluxos cada vez mais diversos, mais amplos, mais numerosos, mais rápidos. Interagem sistemas de objetos e sistemas de ações. De um lado, os sistemas de objetos condicionam a forma como se dão as ações, e, de outro lado, o sistema de ações leva à criação de objetos novos ou se realiza sobre objetos preexistentes. É assim que o espaço encontra sua dinâmica e se transforma”, ensina Milton Santos.

Pensar a Cidade é pensar o cidadão. Propiciar espaços que convidem os indivíduos a participar e usufruir do espaço público. Atividades simples e singelas do cotidiano como o encontro fortuito ao dividir um banco na praça, desfrutar das atividades ao ar livre, passeios, corridas, espaços de lazer. Dividir a Cidade com o outro. Quando mais eu divido, mais inclusão acontece. Somam-se as expectativas, multiplicam-se as ações, ganha-se bem-estar, convívio, segurança e tolerância.

Praças, esquinas, praias, igrejas, shopping centers, bares e restaurantes -, multiplicidade de lugares que favoreçam o encontro das pessoas, expandindo a função social do território, ampliando as fronteiras, facilitando acessos, rompendo a exclusão em respeito e cuidado entre desiguais. Espaços iguais, lugares iguais, relações igualitárias, promovendo oportunidades. Função desempenhada por espaços integradores de relações sociais assimétricas. Espaços de cidadania, reconhecidos com elemento essencial do espaço urbano destinado ao encontro dos cidadãos comuns.

Até bem pouco tempo, a vida se passava na rua. Conhecíamos nossos vizinhos todos. Lembro-me que das quadras próximas à minha casa na infância, sabia quase todos os nomes dos vizinhos que lá moravam. Ali jogávamos bola, andávamos de bicicleta, soltávamos pipas, fazíamos festas… Ah! As festas juninas com direito a fogos, biribinha, fogueira e balão, molecada correndo atrás.

Se essa rua hoje fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante, argamassa colorida de amizade e apreço, colocava lá todos os meus queridos e saia a passear com meu amor de braço dado. Depois a gente ia sentar no banco da praça, sorveteiro de carrinho a oferecer chocolate gelado com morango.

Nosso bairro tinha escola, parquinho, mercearia, lojinha de tecidos e armarinho, igreja com quermesse e tudo. Tinha até hospital. Ruas e praças faziam parte do nosso universo cotidiano, dos nossos sentimentos, do imaginário de criança e adolescente que achavam tão bonitos – elegantes mesmo! – os prédios que se erguiam no lugar das casas que sumiam.

A rua como palco do encontro cotidiano, não como lugar da não planejada expansão imobiliária, que corta escola e praça, isola gente, lugar do medo, restrição, assalto ou agressão. Fluxos capazes de tirar-nos das prisões das nossas casas, moradias solitárias onde se vive junto, se estando só.

Perda gigante para os que vivem nas cidades, privados da rua lugar lúdico e de todos, teatro de todas as brincadeiras, de meninos e meninas, das senhoras e senhores que não mais ocupam os bancos das praças e nem mais jogam dominó. Fumaça preta, profusão de carros, muros altos, cães ferozes, tudo isso para mostrar que o outro pode menos, que o dinheiro vale mais e que prendo, bato e arrebento qualquer um que me vier contrariar.

Na contramão do infortúnio, lá ia Luis Carlos, 13 anos, pirraçando com a mãe que para a Igreja não ia com aquele sapato apertado havia um ano que o filho da patroa havia lhe presenteado. Sentou-se emburrado no banco do ponto de ônibus, não existindo argumento que o fizesse mover-se, perdido que já estava o horário do culto.

Saia do Jardim Valverde, ônibus bonito e articulado – tinha até piso “baixo” -, percorrendo a Avenida quando o casal entrou. Seu José e Dona Adélia passaram a roleta mais parecendo furacão, batendo os pés, olhar furioso, nem uma palavra trocaram. Segurava ela forte a sacola que deixava entrever um bonito par de tênis, marca importada e cadarço reluzente. Desembesta ele a falar, todos os passageiros se voltam, que aquele calçado era de moleque, comprado em liquidação, que para o futebol não servia. Tinha ela feito de propósito porque a pelada nos sábados, manhã perdida com os amigos e regada a cerveja que ninguém é de ferro, ela que se virasse com a casa e com o almoço, e que o presente não queria.

Sem esboçar palavra, no instante que o ônibus passa devagarzinho ao lado do ponto sem passageiros a subir, suprema vingança da malcriação, Dona Adélia atira o pacote pela janela que, voando, vai se alojar diretamente no colo do rapaz que, cabisbaixo, não se dá conta de onde veio o embrulho. Envolvida com seus pensamentos de prece, a mãe de Luis Carlos toma um enorme susto ao escutar o barulho seco, atingiram o rapaz, que não fosse pedra nem bala perdida que o menino é bom filho e bom aluno, Deus o livre e guarde!

Sorriso no canto dos lábios, começa o rapaz a desvendar o pacote caído do céu, será? Que Deus não conhece desaforo nem aguenta tristeza sincera, só Ele mesmo que sabe todas as coisas, para saber o modelo, cor e tamanho do calçado de sonhos, que ele ia correndo para o culto, a mãe esperasse o ônibus, que ele não podia esperar para contar que milagre acontece, do jeitinho que se pede, que quando se ora com fé, do nada cai no seu colo, a graça que se espera.

Encontro imprevisto que o inusitado proporciona em meio à agitação de uma Cidade que se pensa ter esquecido o outro. Nem tudo está definitivamente perdido! Em algum lugar da Cidade alguém tem sobrando aquilo que pode lhe fazer falta. Basta abrir a janela e deixar o outro entrar!

O que muda em cada contexto é a estratégia de ação e o agente transformador. A transformação das condições de vida no urbano passa pela compreensão dos agentes públicos ao se perceberem como agentes de transformações sociais.

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