Editorial

VIDA QUE SEGUE

Nesta pandemia, que nos obrigou a ficar separados pelo distanciamento social, somos tomados por sentimentos e pensamentos absolutamente contraditórios.

Dependendo da situação, inicialmente o fato de ter que ficar em casa, trouxe uma certa euforia. Tinha-se finalmente tempo para fazer o que se quisesse, sem as obrigações cotidianas que pesavam sobre nós. Arrumamos coisas, gavetas e armários. Assistimos a todas as séries das plataformas de Streaming. Xeretamos a vida das pessoas nas redes sociais. Enviamos cumprimentos e posts, todas as formas de bom dia, boa tarde e boa noite pelo WhatsApp. Fizemos ginástica nas varandas, aulas on line, curso à distância. Passamos por várias fases. Apelamos ao mundo virtual como substituto dos relacionamentos face to face.

Muitos setores, notadamente os acoplados à internet e vendas on line, com destaque para os considerados essenciais, tiveram seu movimento mantido ou aumentado, com ganhos efetivos. Fornecedores de suprimentos se adequaram ao necessário padrão de descontaminação e criaram horários alternativos. Diversas oportunidades se abriram para pessoas e empresas que passaram a prestar serviços e vender produtos pela web. Servidores públicos e de vários setores empresariais continuaram seu trabalho à distância, conferindo um mínimo de normalidade diante do caos que nos havia atingido.

Tivemos medo. E continuamos a ter. Quanto de segurança se tinha ao sair de casa? Ameaça invisível, de difícil compreensão, dissecada por infectologistas e especialistas em variedades, confundindo mais que esclarecendo, dividindo opiniões, criando cizânia, ofensas e danos por vezes irreparáveis aos relacionamentos físicos ou virtuais que se esgarçam e se quebram na incompreensão e intolerância. Na convivência forçada nos ambientes. No desrespeito e na agressão física, verbal ou virtual.

Choramos e continuamos a chorar nossas perdas. Mais de 100.000 mortos em poucos meses. Mais de três milhões de infectados, em sua maioria, com atendimento insuficiente. Caminhando pela pandemia de forma titubeante, sendo conduzidos erraticamente por autoridades que se contradizem, se chocam e nos confundem.  Dividem as opiniões e o país. Porém, firmes na esperança por uma vacina no mais breve tempo e acessível a todos. Quando virá?

Foram-se muitos empregos, ocupações temporárias, renda e sustento familiar. Empresas e pessoas queimaram suas reservas até o último tostão. Banco não empresta a pobre e muita gente se viu sem nada da noite pro dia. Mais da metade do país sem trabalho. Sociedade se mobiliza, governos socorrem, empresas contribuem, redes sociais se movimentam a favor de instituições e indivíduos. Situação emergencial que supre a falta, mas não de tudo, nem para todos, que não resolve a situação porque a crise do trabalho é estrutural e se aprofunda, o desalento cresce e o desânimo é brutal. Até quando aguentamos? O que esperar à frente?  

Governos e setores produtivos produziram protocolos buscando compatibilizar distanciamento social e abertura das atividades econômicas. Estabeleceu-se um certo consenso e hierarquia sobre o grau de perigo advindo das atividades que poderiam causar aglomerações e como lidar com elas. Iniciaram progressiva retomada das atividades dependendo dos indicadores de saúde de cada região. Fases e cores, a exemplo de outros países, foram adotadas como estratégia. Governadores e prefeitos determinam abertura ou fechamento conforme aumenta ou diminui o número de pessoas infectadas.

Estamos numa fase experimental rumo uma normalidade com controles na busca pelo equilíbrio entre o desejável, o possível e o necessário.  As autoridades, na maioria, estão fazendo o que devem e podem, embora alguns façam o que não se deve e outros nem mesmo fazem o que podem.

As pessoas seguem seu rumo, adotando a seu bel prazer, todo tipo de comportamento. Alguns não saem de casa de jeito nenhum. Outros saem para poucas atividades. Há os que insistem em passear sem máscara, os que promovem aglomerações, desdenhando das recomendações, dificultando para os demais o cumprimento de regras restritivas de convivência, colocando a sociedade em risco.

Mais recentemente, melhor compreendendo as circunstâncias, começamos a buscar saídas para reduzir perdas. São muitas e significativas, tanto no nível individual quanto coletivo. Precisamos de ações eficazes para promover abertura para uma nova reorganização social e econômica capaz de produzir apoio e inclusão para milhões de pessoas que foram, estão sendo e ainda serão afetadas por este flagelo.

Daqui em diante, importa que o poder público, em permanente diálogo com os setores produtivos e autoridades sanitárias, planeje a retomada das atividades sociais e econômicas. Urge estabelecer políticas eficientes de proteção social por meio de Programas de distribuição de renda, apoio e capacitação para novas formas de ocupação e trabalho. Esta tarefa se impõe a toda a sociedade.

Definitivamente não adianta ficar esperando por um governo salvador que, utópico, não deu e não dará conta das ações necessárias.  São mais de 60 milhões de pessoas pobres e extremamente pobres que precisam comer, vestir, pagar contas de luz e gás, manter internet funcionando para que os filhos tenham acesso à educação. Mesmo havendo vontade política, a capacidade instalada para mobilizar as engrenagens públicas e seus agentes em quarenta, responde pouco às situações normais, quanto mais em emergências. É preciso que reajam a tempo, se importem, se organizem e se empenhem mais.

Conselhos Municipais de Políticas Públicas que possuem Fundos, precisam ser mais pró ativos na liberação de recursos por meio de Projetos. Este é o caso dos Fundos da Criança e do Adolescente, vinculados aos CMDCAs ou de Inclusão Digital (FUMID), entre outros, no apoio para aquisição de equipamentos eletrônicos para realização de tarefas escolares à distância de crianças, adolescentes e jovens. Para qualificar jovens e adultos.,

Os setores produtivos, principalmente aqueles que cresceram ou mantiveram seus negócios, necessitam, de fato, ajudar a garantir sobrevivência de indivíduos e famílias, a reconstruir pequenos negócios, apoiar artistas e músicos, autônomos, ambulantes, artesãos, microempreendedores. As instituições não governamentais precisam recriar seus Projetos de Apoio a populações e comunidades, mas também precisam dos recursos necessários para manter seus trabalhos, carecem de parcerias e doações.

Ainda, cada cidadão, pode (e deve) contribuir individualmente ou em pequenos grupos para melhor a vida de muitos. Se organizar para oferecer cestas básicas, doar material de construção, financiar cursos profissionalizantes, atendimento médico e psicológico gratuito, ofertar roupas, alimentos, utensílios, seja a pessoas em situação de rua, seja às famílias, seja para comunidades.  Quando se tem um olhar amoroso para aqueles que precisam, encontramos diversas formas e maneiras de ajudar.

Por fim, registre-se, será preciso manter a sociedade mobilizada. Essas ações farão parte do novo normal durante um longo tempo. Para que a vida possa prosseguir. Para que possamos prosseguir com vida!

 
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