

Frederico Bussinger
“Não se gerencia o que não se mede,
não se mede o que não se define,
não se define o que não se entende,
e não há sucesso no que não se gerencia”
[Edwards Deming – Estatístico,
considerado “pai” da cultura da qualidade]
“… o que é bom a gente fatura,
o que é ruim a gente esconde”
[Rubens Ricupero –
jurista, historiador, diplomata e ex-ministro,
falando sobre como tratar os resultados
de uma gestão pública, em entrevista,
sem saber que as câmeras já transmitiam sua fala]
Dados portuários vêm evoluindo muito no Brasil nas últimas décadas. Tanto no que concerne à coleta, sistematização, arquivamento e disponibilização, quanto à diversificação de canais/veículos para acesso público. Assim, há hoje a possibilidade de se buscar dados panorâmicos do setor em fontes oficiais (ANTAQ, a mais tradicional, sucessora do GEIPOT nessa tarefa; e o ONTL/InfraSA); como também recortes específicos em painéis de entidades, como a ATP o faz há quase 10 anos e, futuramente, os “dados certificados” do IBI. Ademais, há aqueles individualizados em sites de administrações portuárias (portos públicos) e de TUPs. Ou seja, como a possibilidade de obtê-los vai se ampliando, passou a ser possível cotejá-los; eventualmente corrigi-los. Isso é muito bom!
O mesmo não pode ser dito em relação a análises de dados; às informações deles emergentes. Nesse campo ainda engatinhamos, o que limita e compromete a compreensão dos fenômenos/processos do setor (usando as conceituações de Richard Wurman, no seu clássico “Ansiedade de Informação: como transformar informação em compreensão” – 1999).
Quem, p.ex, deseja saber o fluxo de contêineres no Porto de Santos em 2025, se buscar as estatísticas divulgadas pela ANTAQ é informado que nele foram movimentados 4,05 milhões de TEUs. Já se optar pelas da APS, se deparará com 5,91 milhões de TEUs (46% mais!). Qual das informações é a correta?
Difícil que qualquer dos dados, em si, esteja numericamente errado. Então por que informações tão díspares? A resposta não é meridianamente clara em nenhuma das duas divulgações; tampouco simples. Requer investigação, lupa/zoom sobre as definições e conceitos por trás dos números, operações aritméticas acessórias, paciência e trabalho – que fica como dever de casa para o leitor!
Dito de outra forma: os dados estão disponíveis (cada vez mais disponíveis!), mas a maioria das informações necessárias para gestão e planejamento (ainda) precisam ser garimpadas; precisam ser compreendidas. Mesmo muitas das mais básicas.
Em contraposição, tanto narrativas de “sucesso” (recordes, principalmente) como dados que as fundamentam são disponibilizados nas páginas de abertura dos sites e redes sociais das administrações portuárias e TUPs logo nos primeiros dias do mês subsequente. Essas informações alimentam a maioria dos veículos de comunicação e influenciadores que se dedicam ao setor. Bem entendido; obviamente: narrativas e casos de “sucesso”; como manda o manual da marketagem. Não sendo esse o caso, os respectivos dados são friamente registrados nas abas correspondentes, sem manchetes ou pop-ups. Sem destaque.
Média Móvel
A métrica mais usual para avaliação de desempenho portuário (ou a mais mencionada) é o volume movimentando; ainda que por vezes haja menção a valores e produtividade. Como consequência, os dados mais destacados são toneladas ou TEUs. E, como metodologia, comparam-se os dados de um determinado mês (ou acumulado no ano até ele) com seu anterior.
Essa prática (métrica, dados, metodologia), amplamente disseminada no setor portuário brasileiro, intenta refletir evoluções de seu desempenho. Mas, como estruturada, acaba indo pouco além de informar que tal porto/terminal tem condições de movimentar aquele volume, que tem tal capacidade de oferta; apesar de que a marketagem procura veicular, subliminarmente, ideia/mensagem de ações exitosas; de excelência de gestão.
Dados de um mês, de poucos meses, na verdade, estão muito mais correlacionados à demanda; em particular ao comércio exterior. Não parece que ele embute, ou até reflete mais efeitos transitórios de geopolítica e/ou mercados? Supersafras de grãos ou antecipação de vendas brasileiras para aproveitar preços internacionais favoráveis; decisão chinesa de aumento de estoque estratégico de alguma commodity; desarranjo na distribuição de contêineres em função do acidente no Canal de Suez; quebra de safra de laranja por seca na Flórida; fechamento do Estreito de Ormuz; etc.?
Durante a pandemia a sociedade brasileira foi apresentada a uma tradicional ferramenta estatística: a média móvel. Seu principal benefício foi permitir transcender-se às contabilizações de infectados e óbitos e identificar tendências de evolução do processo; bem como aferir o impacto, p.ex, da introdução das vacinas sobre o universo de infectados.
A média diária dos últimos 7 dias, de cada um desses dados, era amplamente divulgada pela mídia e redes sociais, permitindo o melhor gerenciamento do processo. Após algum tempo, a população já tinha se apropriado e lidava com ela como o faz com as previsões meteorológicas, indicadores de inflação, ou informações de congestionamento de trânsito nas grandes metrópoles. Passou a ser uma linguagem comum entre cientistas, gestores, autoridades, comunicadores e a população em geral. Um importante ativo; portanto!
Entre nós ela se popularizou na Pandemia da Covid. Mas há muito é ferramenta estatística utilizada em análises temporais como, p.ex, de engenharia de produção, planejamento e gestão de manutenção (análise de confiabilidade e manutenibilidade), finanças e economia. No varejo e na indústria, ela auxilia na previsão de demanda, reduzindo riscos de falta ou excesso de estoque.
A média móvel visa suavizar flutuações de curto prazo e identificar tendências em séries históricas. É uma ferramenta simples, quase intuitiva e eficiente; certamente motivo pelo qual tornou-se recurso indispensável para analistas que buscam interpretar padrões e prever comportamentos futuros, melhorando o desempenho de modelos preditivos. Ela funciona como um farol: não prevê o futuro com precisão, mas ilumina o caminho com mais clareza do que olhar-se para números isolados; pontuais.
Seu cálculo é simples; já aprendemos: consiste em calcular-se a média de um conjunto de dados dentro de um período de tempo (semana, no caso da Pandemia) que se desloca continuamente. A medida que novos valores entram (diariamente, naquele caso), os mais antigos são excluídos, permitindo acompanhar-se o comportamento de uma variável sem o “ruído” típico de oscilações de curto prazo.
A mais conhecida e utilizada delas é a média móvel simples, na qual os dados de todos os períodos considerados têm pesos iguais; como o foi no caso da Pandemia. Mas há também média móvel exponencial, na qual, p.ex, dados mais recentes têm peso maior; e a média móvel ponderada, que permite que analistas definam, manualmente, o peso de cada observação.
Um passo adiante
Há notícias de que médias móveis já são utilizadas (com sucesso) em processos de alguns operadores portuários brasileiros. Por que não para os dados estatísticos divulgados mensalmente pelas administrações portuárias, TUPs e pela própria ANTAQ e InfraSA? Certamente não será muito complexo a ANTAQ incorporar essa ferramenta no seu “Painel Estatístico Aquaviário”, que é dinâmico e já permite relatórios à la carte (personalizados) desde 2014.
Junho está muito em cima. Mas porque não no início julho próximo, ao invés de se divulgar a movimentação de soja ou contêineres de junho (ou até junho) do porto-X, a informação com maior destaque não seja a média mensal dos últimos 12 meses? A marketagem talvez não goste muito da ideia, mas certamente a gestão e planejamento agradecerão. Serão beneficiados.
Ah! Também a elaboração do PNL, planos mestres, PDZs e modelagem para arrendamentos poderiam ter ganhos, se fosse adotado, ainda que paralelamente às projeções tradicionais, médias móveis anuais dos últimos 10, 5 ou 3 anos. Aliás, poderia também ser o cenário-base para projeções que vêm sendo introduzidas nos relatórios da ANTAQ, como a de movimentação de contêineres para 2030 na edição de 2025 (pg. 23).
Tal mudança de padrão é tanto metodológica como, principalmente, cultural. Nesse sentido, além da disponibilização periódica da informação (média móvel), a imprensa pode ter uma participação muito importante… como o teve na Pandemia: priorize manchetear a média móvel!
Não se contente com os releases recebidos: exerça o jornalismo investigativo, cobrando a média móvel das administrações portuárias, TUPs, e da própria ANTAQ. Em pouco tempo ela se tornará uma rotina.
[Periscópio nº 2610]
Frederico Bussinger. Atualmente consultor. Engenheiro e economista. Pós-graduado em engenharia, administração de empresas, direito da concorrência, e mediação e arbitragem. Foi: Diretor da Codesp (atual APS – Porto de Santos), Departamento Hidroviário/SP e Metro/SP. Presidente da Docas de São Sebastião e CPTM (trens metropolitanos de SP). Membro da Comissão Diretora do Programa Nacional de Desestatização – CD/PND. Coordenador do GT de Transportes do Comitê Gestor da Política Estadual de Mudanças Climáticas – PEMC/SP. Secretário de Transportes de São Paulo/SP e Secretário Executivo do Ministério dos Transportes.
