Editorial

Mora na Filosofia

Eu vou lhe dar a decisão:
Botei na balança e você não pesou.
Botei na peneira e você não passou.
Mora na filosofia pra quê rimar amor e dor.
Mora na filosofia pra quê rimar amor e dor.

Se seu corpo ficasse marcado,
por lábios ou mãos carinhosas.
Eu saberia, ora vai mulher,
a quantos você pertencia.
Não vou me preocupar em ver,
seu caso não é de ver pra crer.
Tá na cara!

Em 1955, o samba “Mora na Filosofia”, com letra extremamente bem elaborada pelo Mestre Monsueto em parceria com Arnaldo Passos, foi escolhido “o samba do ano” e “como uma música mais do que perfeita”, sendo considerado até hoje como um dos mais belos sambas da Música Popular Brasileira.

“Qualquer decisão que se tome exige uma avaliação criteriosa, pensada, refletida. Não deixa de ser um exercício de filosofia. É esse o tema do samba que se tornou um clássico!

Na música o “eu lírico”, depois de fazer suas análises de comportamento da mulher com quem vivia uma relação amorosa, resolve por fim àquela história, encerrar o envolvimento sentimental.

Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança e você não pesou
Botei na peneira e você não passou

Como se diz, geralmente, quando se chega a uma conclusão: já tenho o “veredito!”. Com cuidado fez todas as apreciações necessárias no caso. Quando se coloca algo na balança e esse algo sequer mexe os ponteiros, indicando seu peso, é sinal de que não vale nada. A peneira é um instrumento que permite depurar o que é importante e útil. Se nada passar é porque nada serve, pode ser desconsiderado, preterido. Esse foi o resultado ao avaliar melhor aquela mulher, que até então tinha como seu amor.

Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor

A sabedoria popular já nos ensinou que não dá para compatibilizar prazer e sofrimento. Não dá para rimar essas duas expressões de sentimento e emoção. Não se ajustam, não se harmonizam, não combinam.

Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia, ora vá mulher
A quantos você pertencia

Imagina que, se beijos e carícias deixassem marcas no corpo, ele não teria dificuldade em perceber quantas foram às vezes em que ela se entregou a outros parceiros. Pede que não insista em querer enganá-lo.

Não vou preocupar em ver
Seu caso não é de ver pra crer
Tá na cara

No entanto, não faz disso uma preocupação. Nem precisa ter as provas, “ver pra crer”, está estampada no seu rosto a prática da infidelidade, “tá na cara” que ela não é a mulher da sua vida”.

Importante que se saiba, que até aqui, utilizamo-nos literalmente do conteúdo do site “Eternas Músicas – uma homenagem aos grandes compositores brasileiros” (http://eternas-musicas.blogspot.com/2014/08/mora-na-filosofia.html) por fielmente representar, de maneira absolutamente adequada, o argumento filosófico contido no poema musicado.

Os autores do samba demonstram profundo conhecimento da alma humana e de sua estreita ligação com sentimentos e ideias. Não importa se os saberes reconhecidos na letra do samba pouco se referenciam ao saber letrado ou mantenham relações com conceitos enunciados pelos filósofos clássicos.

Porque a filosofia transcende o saber ilustrado! A filosofia é mais do que um conjunto de conhecimentos prontos, ou um sistema acabado, fechado em si mesmo. A filosofia é, antes de tudo, um modo de pensar a realidade objetiva. É uma postura que decide pensar além o mundo além do que se vê.

A filosofia nos fornece elementos para a reflexão e, por meio deles, cria o instrumental necessário para poder transformar a realidade objetiva. “Penso, logo existo!”, nos diz o ilustre filósofo, afirmando a existência do homem como construtor da sua própria realidade.

Ao refletir sobre a atitude da dama, conferiu o poeta a inutilidade de rimar amor e dor, argumento igualmente empregado em “Guerra e Paz”, ressaltando a dicotomia de uma sociedade niilista, que nos empurra à escolha de um destino ou outro: o amor ou a dor, como se nada mais houvesse. Somente o sentido filosófico da análise – Mora na Filosofia! -, possibilitou pesar na balança a atitude desleal da moça, reformulando a questão.

A filosofia incomoda. Questiona o modo de ser das pessoas. Coloca em dúvida sistemas de crenças. Reflete cristalinamente o que está por trás do discurso. Nos ensina a pensar e a buscar outras possibilidades além das mais óbvias.

Pouco adianta querer confinar-se a filosofia ou querer reduzi-la a um lugar menor. Ela é o que agiganta a pessoa e dá à sua vida um conceito maior.

Negar-se à filosofia o seu lugar ou simplesmente afirmar que não há filosofia pela qual ideias ou pessoas são conduzidas, é o mesmo que se entregar a outro a condução de nossa própria vida. Em tudo, em todas as atitudes, há sempre uma razão. Se ignoro o princípio, sempre há outro que lhe conhece a origem!

 

 
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