EDITORIAL

CRISE & ESCOLA: PERDAS, DORES E DANOS

Desde que desabou sobre nossas cabeças a crise causada pelo Covid-19, muitas foram as transformações experimentadas por milhões de pessoas. Ansiedade, angústia e morte passaram a nos acompanhar desde que, ao final de 2019, na China, apareceu o novo vírus. Desde então são milhões de infectados e mortos em todo o mundo, culminando aqui no Brasil, na recente segunda onda, com a perda de centenas de milhares de vidas, dentre mais de 13 milhões de infectados, até o momento.

Como forma de conter a disseminação do vírus, autoridades impuseram à população necessárias medidas restritivas de circulação, convívio e contato em meio público. Da noite para o dia indústria, comércio, escolas, teatros, hotéis e restaurantes, dentre diversas atividades econômicas consideradas não essenciais, fecharam suas portas. Em favor da redução do contágio, pelo distanciamento social. A vida humana tem prioridade!

Ficamos em casa, independente de espaço ou tamanho da família, ainda que parcela da população não tenha parado suas atividades ou porque não pôde ou por negação.

Aprendemos a lavar sempre as mãos, usar álcool e máscara, higienizar alimentos e roupas. Nos distanciamos dos nossos queridos, nada de abraço nem beijo, nem encontro no bar, nem na esquina. Parentes e amigos adoeceram. Muitos perderam a vida e quem sobreviveu teve sequelas. Esgotamos o sistema de saúde, médicos, enfermeiros e a nossa paciência. Emocional e fisicamente muitos ficaram destroçados.

Mas há muito mais dores que estamos experimentando em razão de todas as mudanças deflagradas pelo coronavírus.  A maior delas, sem dúvida, é a dor da perda de nossos entes queridos; familiares ou amigos. Muitos experimentam a dor da fome, da falta de comida em casa. Outros a dor causada pela violência doméstica, ou pela dor física e emocional do abandono. Há enormes prejuízos e danos causados pela redução de postos de trabalho, de “bicos” e atividades remuneradas, de vínculos de trabalho, do trabalho em home office.

Sobretudo, perda significativa experimentam nossas crianças e adolescentes. A começar pelo fechamento das escolas, particularmente das públicas, já que as privadas têm recursos mais que suficientes. Lembro aqui o fiasco das iniciativas de educação a distância, já que a grande maioria dos alunos não tem computador ou celular, tampouco internet para participar das aulas.

Nove meses depois do início da pandemia no Brasil, o UNICEF alertou para o agravamento da situação de crianças e adolescentes, particularmente, entre as famílias mais pobres. A segunda rodada da pesquisa Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, lançada em 11 de dezembro passado, dava conta que as famílias morando com pessoas menores de 18 anos estavam sofrendo cada vez mais os impactos econômicos e sociais da crise, com destaque para os mais vulneráveis.

Segundo a pesquisa, a renda das famílias com crianças e adolescentes caiu; aumentou o número de famílias que não conseguiram se alimentar adequadamente porque a comida acabou e não havia dinheiro para comprar mais; menos estudantes tiveram acesso a atividades escolares; e há um receio das famílias de deixar que os filhos e filhas retornem à escola de forma presencial. “A pandemia tem atingido crianças e adolescentes desproporcionalmente, sobretudo, aqueles que vivem nas famílias mais pobres. A queda da renda familiar, a insegurança alimentar e, praticamente, um ano de afastamento das salas de aulas terão impactos duradouros na vida de meninas e meninos”, diz Florence Bauer, representante do UNICEF no Brasil. Para mais detalhes, acesse a primeira etapa da pesquisa aqui e a segunda, aqui. (Site do UNICEF).

A Escola tem valor fundamental para todas as crianças, em especial para as mais vulneráveis”. Como nem todos os pais puderam ficar sem trabalhar, sem escolas e creches, muitas crianças acabaram ficando largadas. Dentro de casa, expostas à TV e telas em excesso, com alimentação precária, sem atividades, sedentárias, sem pai ou mãe para “ajudar no ensino à distância”. E fora de casa, expostas a diversos riscos e ameaças.   “A sociedade está adormecida. Estamos com 40 milhões de crianças sem escola e ninguém fala nada. É um elemento central do nosso desenvolvimento“, alerta o pediatra e sanitarista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Daniel Becker, incentivador da retomada do ensino presencial. (www.terra.com.br).

Se as escolas continuarem a não ter estrutura, com poucos profissionais, excesso de alunos, sem ventilação, sem sabonete e água… Os relatos dos professores são dramáticos. Se alguma escola estiver aberta em março e abril, quando temos alta estação de viroses, muitas crianças com febre, sem testagem, sem convênio com a saúde, sem protocolos, sem saber o que fazer, as escolas vão fechar em série”, completa Becker, e acrescenta compreender o receio de professores que trabalham em escolas com poucos recursos, mas afirmando que todos precisam cobrar investimentos públicos e privados para que elas sejam adaptadas para abrir.

A crise desencadeada pela pandemia assume contornos alarmantes. Diversos setores emitem importantes sinais de alerta. Amargamos, hoje, inúmeras perdas.

De fundamental importância é a criação e fortalecimento de políticas públicas capazes de apoiar pessoas, famílias e setores produtivos diretamente afetados pela pandemia para auxiliá-los a reverter danos que se vão tornando estruturais. “Se nada for feito, o Brasil corre o risco de um aumento ainda mais forte das desigualdades que já existiam antes da pandemia, afetando particularmente crianças, adolescentes e suas famílias”, destaca Florence.

 
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