As relações que as pessoas estabelecem com o espaço e como dele se apropriam é o que molda diretamente a forma como esse território se constitui. Em um processo continuamente dinâmico e nem sempre organizado ou controlado, o espaço urbano vai assumindo novas e variadas formas.
Em um tempo em constate e acelerada transformação, as cidades vão construindo sua identidade em face de uma realidade cada vez mais complexa, dando a impressão de confronto entre forças que buscam diferentes usos do território.
Constitui uma dinâmica que vai amalgamando movimentos que revelam permanências, transformações, deteriorações, revitalizações e novos formatos de acordo com os valores adotados por grupos sociais ou interpostos por leis e decretos que acabam por alterar a paisagem.
Quando se vê, não mais se pode observar as mesmas praças, mesmas casas, mesmos comércios, igrejas, escolas, hospitais ou logradouros que se via até a algumas poucas décadas. Sensação de que o tempo se passa em passo cada vez mais acelerado, fruto de novos métodos construtivos, novas tecnologias, novos interesses, novas relações, nem sempre declarados, que vão desconstruindo e edificando novas realidades e paisagens. Aquela esquina não é mais a mesma; não me encontro mais neste lugar tão familiar onde resido e me movo há muitos anos!
As atividades urbanas possuem grande capacidade de adaptação e plasticidade, adaptando-se às demandas e interesses sociais. Cada vez menos se observa a ação do poder público como regulador e mediador das relações urbanas. Essa ausência crescente vai dando lugar ao aleatório, ao desregrado e ao mal feito.
De um lado, a segregação espacial entre grupos sociais se torna intensa. Surgem novas tendências de reintegração e de reapropriação dos espaços, em geral públicos, por diferentes setores. Populações mais pobres ocupam locais cada vez mais distantes do centro, onerando os tempos de deslocamento para atividades produtivas, tornando inviável para estes, outros usos da cidade. Força-se seu confinamento e se acaba por isolar comunidades inteiras que se tornam presa fácil de interesses obscuros.
Os mais ricos se isolam por si mesmos. Seu habitat, agora, inclui empreendimentos imobiliários que oferecem a conveniência de morar, trabalhar, fazer compras e desfrutar de lazer num só lugar, prescindindo do uso da própria cidade. Os condomínios fechados, por segurança, passam a ser também atraentes para grupos sociais menos abastados. Instala-se, desta forma, novas circunstâncias que não facilitam o acesso aos serviços (públicos os não), às áreas comerciais e demais áreas públicas da cidade.
De forma crescente as fraturas urbanas se avolumam pela tipologia habitacional, pela segregação social e cultural, por razões econômicas e de classe social. A cidade se fragmenta e se desfaz. Deixa de expressar possibilidades, enclausura bairros, gerando múltiplas barreiras difíceis de serem vencidas.
O conjunto de elementos da cidade, multifacetado, multifuncional e interpessoal, com edifícios, ruas, praças e outros componentes humanizados que vão se moldando com o tempo pela ação humana, refletindo aspectos históricos, sociais, culturais e afetivos vão cedendo. Desconstruídos, dificultam a interação entre grupos sociais distintos e o acesso aos espaços públicos, borrando a integração urbana original, de forma indelével.
A omissão e ausência do poder público na organização urbana resulta em uma série de graves problemas sociais, ambientais e econômicos, que comprometem a qualidade de vida e a segurança da população. Constitucionalmente, a responsabilidade pela organização e planejamento das cidades é da municipalidade, administradores e câmaras municipais, que devem garantir a função social da cidade e o bem-estar coletivo.
Porque pouco ou nada fez no tempo determinado, ao poder público, em breve, pouco ou quase nada restará fazer!
