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O homem que enfrentou o setor elétrico

 

 

 

 

Pedro Victoria Junior

Já havia trabalhado 5 anos na Diretoria de Hidrovias e Desenvolvimento Regional, da Companhia Energética de São Paulo – CESP. Tinha cursado pós-graduação em Planejamento em Transportes. O suficiente para ter uma noção de como funcionava a Hidrovia Tietê-Paraná e suas dificuldades.

Era um sistema de transportes e dependia muito de intermodalidade.

Foi quando avançou o processo de privatização da CESP e fomos transferidos para o recém restaurado Departamento Hidroviário – DH, da Secretaria de Logística e Transportes – SLT.

Tínhamos um novo diretor que sempre nos questionava sobre nossas ligações com a CESP e com o setor elétrico.

A princípio estranhávamos. Afinal, a CESP era nossa empregadora e havia administrado a hidrovia com sua peculiar competência.

Até que chegou o ano de 2001 e com ele a primeira crise energética pela qual o Brasil passou. A escassez de energia fez com que os níveis dos reservatórios abaixassem demais e prejudicassem a navegação. Esse episódio foi fundamental para que entendêssemos melhor o uso múltiplo das águas e o desproporcional poder de cada setor.

Compreendemos afinal do que Oswaldo Rossetto, nosso diretor, falava e da real importância de nos aprofundarmos na questão dos usos múltiplos das águas.

A ANA – Agência Nacional de Águas era recém criada e Rossetto entendeu ser esse o lugar certo para levarmos esse conflito. Afinal quem tinha razão? A geradora de energia podia rebaixar o reservatório e prejudicar a navegação? A navegação poderia exigir que a geradora de energia mantivesse o nível do reservatório e com isso agravar a crise energética?

As desconfianças eram recíprocas. Acusações idem. Afinal, o setor elétrico tinha de onde buscar mais energia? Porque não despachavam as térmicas? Qual era a importância da hidrovia frente ao setor elétrico? Não poderia transferir as cargas para as ferrovias e rodovias?

Rossetto contava que a primeira vez que foi à ANA a reunião tinha sido sobre caixotes. Nem de mobília a agência dispunha.

Os embates eram calorosos e o setor elétrico não hesitava em usar toda sua força e prestígio.

José Wagner Ferreira conta que certa vez ouviu em um órgão em Brasília um representante do setor elétrico dizer a seguinte frase:

– Ih! Lá vem vocês com esses barquinhos!

Apesar da assimetria de forças, Rossetto não esmorecia. Passou a incomodar e a ser mal visto pelo setor elétrico.

Nós cada vez mais compreendíamos a gestão de recursos hídricos. Nos aproximamos de outros setores envolvidos. Passamos a ter representação nos comitês de bacia onde Marcelo Poci Bandeira, o gerente de meio ambiente do DH, desempenhou um papel primoroso.

Nada contra a CESP, a quem sempre respeitarei e serei eternamente grato, mas o setor elétrico, de fato, e até com certa razão, julgava ter prioridade na questão.

Rios, no Brasil, para eles tinha uma função: gerar energia. Até hoje eu não entendo porque cabe ao setor elétrico fazer o inventário dos rios. Passou da hora de o inventário ser realizado pelo setor de recursos hídricos. Só assim será possível saber as reais potencialidades de um corpo d’água.

O certo é que a discussão evoluiu muito. Os vários setores, navegação, turismo, meio ambiente, irrigação se envolveram mais nessas discussões. Hoje, há comitê de crise instalado na ANA para acompanhar a situação dos reservatórios e alertar sobre eventuais problemas. A principal obra, que ajuda a resolver problemas entre os setores, o Canal de Nova Avanhandava, está sendo executado, com previsão de término no segundo semestre do ano que vem.

De minha parte, serei sempre grato ao meu amigo Oswaldo Rossetto que nos ensinou que hidrovia não é apenas um meio de transporte, mas integra o sistema de recursos hídricos com seus múltiplos usos.

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