Ah! Que voltem as flores…
“Vê, estão voltando as flores
Vê, nessa manhã tão linda
Vê, como é bonita a vida
Vê, há esperança ainda
Vê, as nuvens vão passando
Vê, um novo céu se abrindo
Vê, o sol iluminando
Por onde nós vamos indo…”
Paulo Soledade é o compositor da marcha-rancho “Estão Voltando as Flores“. Esta maravilha foi composta em 1960, por ocasião da recuperação de enfermidade que quase lhe custou a vida. Desenganado, depois de longa recuperação, abriu os olhos numa manhã esplendorosa de dezembro de 1960. Sem violão nem nada, em quinze minutos – contou para os amigos -, nasceu a melhor composição do autor de “Estrela do Mar” – sucesso na voz de Dalva de Oliveira -, entre outras parcerias de sucesso, como a feita com Vinicius de Moraes para o projeto “A Arca de Noé”. Versos singelos que expressavam a gratidão e alegria do compositor, recuperado de delicada cirurgia, a música nasceu pronta e se tornou um hino de redenção, misto de alívio e determinação de viver, “Vê, como é bonita a vida/ Vê, há esperança ainda…”. Pela minúscula gravadora Mocambo, dois anos depois, a voz grave e melodiosa da carioca Helena de Lima ecoava nas rádios do Brasil inteiro, tornando a canção no maior sucesso de 1962. Um clássico atemporal, conforme o site esquinamusical.com.br.
Nosso compositor nasceu Paulo Gurgel Valente do Amaral Soledade em 1919, em Paranaguá. Desde cedo tornou-se membro da escola mais galante dos cariocas honorários. Com cerca de 20 anos fez teatro com Ziembinsky, ajudou a fundar o famosíssimo Clube dos Cafajestes, além de compor seu hino. Depois, entrou na Força Aérea. Em 1942 foi para os Estados Unidos, fez curso em aviões de caça e voltou -pasme!- como tenente da Força Aérea americana. Desistiu da carreira de comandante na aviação civil, que abandonou sete anos depois, por problemas de saúde. Foi homem da noite, montando a famosa casa Zum Zum, que abrigou os primeiros ícones da bossa-nova no início dos anos 60. Seu repertório é pequeno, porém estupendo. “Estão voltando as flores” é de 1961. Em 1952, com Marino Pinto, compôs “Estrela do mar” (“um pequenino grão de areia, que era um pobre sonhador…) Em 1954, com Vinícius de Morais, compôs “Poema dos olhos da amada”, tão espessamente romântico que parecia até Tom Jobim daqueles anos. Em 1956 compôs “São Francisco”, também com Vinícius, que viria a se popularizar no início dos anos 80. Em 1949, com Fernando Lobo, em homenagem a um companheiro da Aeronáutica que morrera, compôs “Ô zum zum zum zum zum, está faltando um”, como quer Luís Nassif, a quem parafraseio e copio.
Adverte, nesses dias, que para os brasileiros de profissão esperança, os oito versos de “Estão voltando as flores” continuam a ser símbolo de um povo que pode perder batalhas, mas não perde a fé. Que comandantes militares podem ser poetas, que governos precisam ser mais humanos, comprometidos com seu povo, com desenvolvimento e progresso do país e da nação, sem proselitismo.
Significado que se aprofunda tomando cada palavra como um reflexo de nossa própria experiência de superação mesmo depois de períodos tenebrosos.
Convite para enxergar beleza e novas possibilidades nas diferenças de opinião, práticas sociais e políticas. Convite para valorizar a vida, individual e coletiva, valorizando a capacidade de recomeçar.
Nesta manhã tão linda saio pra lida. Olho e vejo um céu magnífico, manhãs de setembro! Profusão de flores, cheiros e cores se abrindo. Destaque particular para os ipês, principalmente os amarelos.
Que se abram os céus e nos ilumine o sol, para onde e por onde nós vamos indo.
