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A Leitura e o PISA

Pisa, sigla inglesa para “Programa Internacional de Avaliação de Estudantes” é um estudo internacional comparativo realizado a cada três anos e mede o desempenho dos estudantes de 15 anos, em escala global. O nível de conhecimento é avaliado em três áreas: leitura, matemática e ciências, sendo dada ênfase a uma das três áreas a cada edição. Entre abril e maio de 2022,  (a pandemia atrasou a pesquisa em um ano), com a participação de 81 países e 690 mil estudantes, a matemática foi a área escolhida. Realizada pela primeira vez em 2000, a prova, programada para 2021, foi feita ano passado. O Brasil participou como convidado em todas elas, sempre com um desempenho muito ruim. Na divulgada pela OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ao final de 2023, as notas do Brasil foram ainda mais baixas que em 2018. Foram avaliados os 38 países membros, além de outros países e regiões convidadas, somando 81 países ao todo, incluindo o nosso.

Nessa última, os dados são especialmente importantes porque representam a primeira avaliação internacional que mede o desempenho dos estudantes depois da Covid-19 e do fechamento de escolas causado por ela. Os resultados permitiram analisar quais países acumularam maiores perdas (ou ganhos) durante o período. Os dados indicam que a crise sanitária teve um impacto global significativo na nota média dos países membros da OCDE, nas três áreas avaliadas. Em matemática, houve uma redução de 15 pontos entre 2018 e 2022 —o que equivale a uma perda de mais de meio ano de aprendizado na disciplina. “Em duas décadas de provas do Pisa, a média da OCDE nunca havia mudado mais do que quatro pontos em matemática de uma edição para outra. Isso é o que torna os resultados de 2022 tão únicos. A queda dramática de performance em muitos países e a pandemia de Covid-19 parecem ter uma forte ligação“, aponta o Relatório.

Em matemática, a prova não buscou avaliar se o aluno aprendeu o uso de fórmulas ou conceitos, mas a capacidade de usar e interpretar a matemática para seu cotidiano. Na leitura, a prova avaliou se os alunos adquiriram habilidades em compreender a informação principal de um texto ou fazer a análise crítica do que estão lendo, além da verificação sobre o pensamento crítico, avaliando se os estudantes foram capazes de desenvolver ideias próprias e originais. A população avaliada tem como base sua idade, não uma série específica, porque os sistemas educacionais são diferentes e, alunos com a mesma idade, estão em anos diferentes, dependendo do país e a região. A avaliação é feita aos 15 porque nesta idade, em grande parte dos países, os alunos já concluíram o ensino fundamental. No Brasil, tipicamente eles estão no 1º ou no 2º ano do ensino médio. A amostra é feita para representar a população em termos socioeconômicos e participação da escola pública e privada.

O Programa avalia um conjunto de habilidades e competências que a OCDE define como sendo as esperadas para estudantes ao fim do ensino fundamental, não se baseando em conceitos aprendidos, mas na “aplicação dos conceitos em contextos novos, não conhecidos. Que é o que, no fim do dia, os alunos vão precisar no mundo do trabalho, na vida adulta“, diz a presidente do Instituto Singularidades, Claudia Costin.

Chico Soares, ex-presidente do Inep, órgão responsável pelo Enem, atribui os baixos resultados brasileiros a problemas estruturais no ensino. “O Brasil está muito aquém do que poderia estar porque ainda não ensinamos os nossos jovens a desenvolverem habilidades, a pensar, a ver a importância do que aprendem em sua vida cotidiana.” Esse juízo vai ao encontro de análises dos resultados dos brasileiros no Pisa feitas por especialistas ao longo dos anos. Uma das conclusões é que os estudantes do país têm dificuldade em entender os enunciados das questões, o que também aponta um grave problema de leitura.

Foram os países e territórios asiáticos que tiveram os melhores resultados na prova. Singapura voltou a registrar o melhor desempenho em todas as áreas, sendo seguido pelo Japão e Coreia. Os três países tiveram melhora nas médias mesmo durante a pandemia. O Brasil seguiu a tendência dos demais países, com queda nas três áreas, ainda que tenha tido perdas bem menos acentuadas que a média dos membros da OCDE. A área mais afetada entre os estudantes brasileiros foi matemática, em que a nota caiu de 384 para 379, entre 2018 e 2022. Há dez anos, a média era de 389.

Essa perda de nota em matemática foi a mais relevante, uma vez que, de acordo com os critérios de comparabilidade entre diferentes, há uma margem de 2,24 pontos. Nas outras áreas, a oscilação negativa é menos representativa. O desempenho em leitura passou de 413 pontos, em 2018, para 410, em 2022. Metade dos estudantes brasileiros está no nível abaixo do básico em leitura, o que significa que eles têm dificuldade, por exemplo, de identificar informações explícitas em um texto. Já a média de ciências oscilou de 404 para 403 pontos no mesmo período, o que pode ser considerado estabilidade.

Os resultados mostram ainda que 70% dos estudantes brasileiros têm um desempenho em matemática abaixo do considerado básico para a idade. Segundo a avaliação, “esses jovens não alcançam um nível de proficiência adequado para “participar plenamente da sociedade“, ou seja, “não conseguem usar os conceitos matemáticos para resolver problemas cotidianos”. Em matemática, a queda chegou a 22, contra oito no restante dos sistemas educacionais dos países avaliados.

A perda foi ainda mais acentuada em leitura. A OCDE considera esse retrocesso “especialmente preocupante” porque a leitura constitui a base da maioria das aprendizagens escolares, como “resolver um problema de álgebra, analisar uma fonte histórica ou interpretar uma experiência científica“.

Para explicar a tendência de queda, a Organização menciona vários fatores, incluindo o uso crescente das telas, a perda de interesse pela leitura entre os jovens e as mudanças na relação dos estudantes com a escola desde a pandemia de covid-19. O Relatório do Pisa também examinou a forma como ferramentas de inteligência artificial são aplicadas em sala de aula. A OCDE constatou que um uso mais intensivo destas ferramentas costuma estar associado a resultados piores em ciências. Embora que alguns dos sistemas educacionais bem-sucedidos, como Singapura e Macau, declarem que seus alunos utilizam a IA com maior frequência.

“O panorama geral é sombrio”, reconheceu o organismo, ressaltando que os avanços demonstram que as melhorias continuam sendo possíveis apesar do retrocesso global observado na última década. Segundo a OCDE, uma variação de duas dezenas equivale a aproximadamente um ano de escolarização.

As considerações acima, boa parte delas extraídas do Relatório e das matérias citadas abaixo, nos levam à triste conclusão de que os sistemas educacionais brasileiros vêm falhando na tarefa de promoção social e cultural dos nossos alunos. Deixado de lado propositalmente a função educativa da escola – porque desnecessário aqui comentar o quanto a educação brasileira deve a crianças e jovens, seja pela ineficiência, abandono ou pouco caso, entre outras mazelas -, há que se ressaltar que as escolas não têm logrado êxito na sua função primordial: fazer com que os alunos dominem fluentemente a leitura e a escrita, a soma e a subtração, a multiplicação e a divisão.

O resultado prático mais imediato disso é que a maioria dos estudantes não resolvem os problemas de matemática porque não conseguem ler e compreender o enunciado dos problemas. Não desenvolvem apreço pela leitura porque não entendem a fraseologia que a métrica dos sinais ortográficos confere aos textos. Consequentemente seu universo falado e escrito vai se empobrecendo. E carregam para as séries subsequentes do sistema educacional dificuldades quase insuperáveis que as levam ao abandono precoce da escola e ao analfabetismo funcional.

Sua comunicação fica cada mais embotada. Desenvolvem linguajar próximo a um dialeto, linguagem de guetos e grupos, limitados a um universo cada vez menor de palavras. Valem-se quase que exclusivamente da linguagem oral que vai tomando lugar das mensagens de texto. Dificuldades que, ao longo do tempo, estão sendo colecionadas também por professores que, exaustos, deixam de remar contra a maré.

De igual forma o ensino e o uso da informática e das mídias escolares carece de atualização, quer docente, quer tecnológica, levando ao precário uso da informática e da informação. O que se recorre é ao uso do celular como ferramenta para substituir as faltas que nem mesmo os jovens sabem que possuem, tal a disfunção do conhecimento.

Neste panorama, a IA vai ganhando terreno: pergunte ao google; consulte o chat GPT! Valendo-se de uma informação truncada e por vezes manipulada. Numa pobreza total de absorção de conteúdo. Cresce o uso de imagens, vídeos, gravações, exposição de imagem, mas de forma pobre. Pouco se faz uso da pesquisa para aprofundar o conhecimento e a informação. Em breve, haverá IA segregada como se apresenta a atualmente a sociedade: a IA dos que detêm o conhecimento e a daqueles que são instrumentalizados pelas mídias sociais e seus manipuladores. Fazendo aprofundar as diferenças em lugar de aplainá-las.

O Brasil que que ser liderança mundial, quer estar entre os países desenvolvidos, é o mesmo que está nos últimos lugares do Pisa. A gente precisa pelo menos liderar a América Latina”, diz Cruz. Embora ressalte que, diferentemente de duas décadas atrás quando surgiu o Programa, o país tem evoluído na construção de políticas públicas mais estruturantes na área.

Acrescentamos ao que ele diz: Há que se fazer muito mais. Para a escola, para a educação e para a cultura. Há que se buscar um crescimento verdadeiro como nação.

Texto produzido a partir de:

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/12/brasil-piora-em-matematica-leitura-e-ciencias-apos-a-pandemia-mostra-avaliacao-internacional.shtml

https://www.terra.com.br/noticias/mundo/brasil-apresenta-resultado-abaixo-da-media-no-relatorio-pisa-que-avalia-educacao-em-91-paises,c5bd387c7337f2f8e8d7a4b6b788093bku7cg8yk.html?utm_source=clipboard

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