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PERISCÓPIO 61: “Covid-19: metáfora e desafio”


Frederico Bussinger

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar,
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá”
[Roda viva” – Chico Buarque]

Forças armadas e policiais frequentemente assumem funções civis em situações de calamidade, catástrofe ou de crise; no Brasil e mundo afora. Mas a imprensa agora noticia promessa da Ambev de produzir álcool em gel. Das montadoras, como Ford e GM, de produzir respiradores mecânicos. De empresas supridoras dos varejistas de contribuir na distribuição de medicamentos e materiais hospitalares, usando sua capilaridade e capacidade ociosa. Esses exemplos de reconversão de plantas industriais, reconfiguração de esquemas de prestação de serviços, e mobilização de vários setores da sociedade são típicos de esforços de guerra.

O artigo da semana passada apontou mudanças que deverão se tornar perenes como legado do Covid-19: na hierarquia e/ou balanços de valores, nas relações interpessoais e familiares, nos arranjos sociais e políticos. Também na ampliação do mundo virtual/online no nosso dia-a-dia; em particular sobre a mobilidade e logística. Os exemplos acima apenas alargam o espectro desse legado, que se amplia a cada dia.

A dúvida, indaga o reconhecido sociólogo italiano, Domenico De Masi, ele próprio envolvido nesse processo, é por que as empresas não haviam adotado antes uma forma de organização tão eficaz e enxuta”. E explica: “A resposta está naquilo que os antropólogos definem como ‘cultural gap’ (lacuna cultural) das empresas, dos sindicatos, dos chefes”.

Entre as leituras desse tempo ocioso, de quarentena forçada, procurei conhecer esse tão poderoso personagem: o vírus. Fiquei sabendo que eles são seres acelulares (não chegam a formar uma célula). Por não contarem com metabolismo próprio, necessitam de outras células (“hospedeiras”) para se multiplicar: invadem uma célula saudável, assumem seu controle e a reprogramam para que passe a replicar, de forma acelerada, seu material genético. Não são seres vivos, como bactérias e fungos: são consideradas “partículas infecciosas” ou “parasitas intracelulares”.

Essa singela descrição do vírus, e como ele atua no mundo biológico, não é uma boa metáfora do como o Covid-19 vem impactando e alterando nossas vidas e relações interpessoais nesse 2020? Nossas sociedades, economias e arranjos institucionais?

A luta da ciência é para identificar a especificidade de determinado vírus. Daí definir estratégias eficazes que impeçam ou, no mínimo, dificultem sua ação. Enquanto isso, e em paralelo, a da medicina e seus gestores visa estabelecer procedimentos e montar esquemas para minimizar os danos dos enfermados, dificultar a propagação do vírus, e prevenir futuras pandemias. Há um razoável alinhamento a respeito, tanto conceitual como operacional.

Já no ambiente econômico, social e político esse alinhamento ainda parece distante. Aliás, até com crescente polarização, que se acentuou esta semana: flexibilização (porque “o País/economia não pode parar”); ou quarentena total (“lockdown”), uniforme e por prazo indeterminado? Em qualquer dos casos, obviamente, excetuam-se as atividades consideradas essenciais; o que nos remete a duas questões:

O que são serviços públicos e atividades essenciais? No Brasil essa questão, ao menos em termos formais, foi resolvida com o Decreto nº 10.282, de 20/MAR passado, que as define. Dentre as 39 arroladas, diversas relativas ao transporte: à mobilidade e à logística.

A segunda questão, se não nos anteciparmos, deve ficar clara quando forem sendo encontradas crescentes dificuldades para se prover esses serviços e atividades essenciais; pois muitos deles dependem de outros considerados não essenciais como, por exemplo, produção e distribuição de embalagens.

Há uma expectativa, latente, de que em 2 semanas “a coisa se resolve”. Em torno dessa expectativa procuramos nos preparar psicologicamente e nos organizar física, espacial, material e financeiramente. E se, infelizmente, não se resolver?

Daí o sentido de urgência ante tantos desafios. P.ex: i) cuidar-se para que cadeias de suprimento não sejam interrompidas, outras sejam restabelecidas; tarefa complexa para a logística tendo em vista a interdependência de cadeias produtivas nesse mundo tão globalizado; ii) aprender rápido com essa pandemia que nos surpreendeu a todos, inclusive analistas e futurologistas; iii) humildade ante a patente fragilidade humana revelada; iv) seguir inovando, como tantos exemplos seguidamente noticiados; v)  mobilizar e estimular a solidariedade; ou imaginamos que podemos nos livrar cada um por si?; e vi) sabedoria e habilidade para nos alinhar sócio-politicamente enquanto nação, ante o inimigo comum e em torno de objetivos estratégicos pois, como nos ensinou Jesus, “uma casa dividida não pode subsistir”.

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